segunda-feira, 7 de setembro de 2015

"Os quatro primeiros coronéis"

Santa Cruz do Rio Pardo e seus coronéis:
'Coronelismo' foi termo usado para definir a prática do mandonismo local pela elite ruralista encarnada nos coronéis, de patentes ou não, detentores do poder econômico, social e político no Brasil, durante períodos do Império e da República Velha, em Santa Cruz do Rio Pardo de 1870 a 1930, por meio da violência e troca de favores. 

1. Joaquim Manoel de Andrade 
Quando da qualificação administrativa para Santa Cruz, como freguesia em 1872, Joaquim Manoel de Andrade destacou-se líder, e seu nome, desde então, a ilustrar os principais cargos, por eleições ou nomeações. A história identifica-o respeitável cidadão, religioso prestante, fazendeiro, criador de porcos, dono de serraria, capitalista e escravagista.
Andrade nasceu em Pouso Alegre -MG, em 12 de novembro de 1825 e batizado aos 20/11/1825 (Eclesial), filho de João Bernardino da Silveira e dona Bernardina Jesuina de Santa Catarina (Projeto Compartilhar, pesquisa de Paola Dias, Cap. 4º – Ângela Pires de Moraes: 9.8).
São os seus irmãos e irmãs conhecidos: 
- Floriana Maria de Jesus: Pouso Alegre-MG, LB 1825/1825: 95; e LM 1832/1856: 47;
- João Bernardino Silveira: Airuoca-MG LM 1787/1814: 246;
- Joaquina Maria de Jesus: Pouso Alegre-MG LM 1832/1856: 38;
- José: Aiuruoca-MG LB 1808/1816: 156;
- Manoel Joaquim de Andrade: LM 1832/1856: 29;
- Maria ...: Aiuruoca-MG LB 1808/1816: 103;
- Marianna Esméria de Jesus: Pouso Alegre-MG LB 1815/1823: 94; e LM 1832/1856: 34;
- Messias José de Andrade: Pouso Alegre-MG LM 1832/1856: 11.
Joaquim Manoel de Andrade apresentou-se no sertão paulista, com dois irmãos identificados, Messias José de Andrade e Manoel Joaquim de Andrade, sendo Messias José pioneiro no Turvo/Alambari, enquanto Manoel, associado a Joaquim, adquiria uma fazenda de campos e matas, aos 19 de dezembro de 1851 (Pupo e Ciaccia, 2005: 136-E 30 e Mapa), na qual inserida a povoação de São Domingos.
O sócio e irmão Manoel seguiu rumo para Lençóis Paulista, enquanto Joaquim iniciou história santacruzense em 1870/1872, como rico fazendeiro, conhecido primo-irmão do homônimo desbravador no Turvo e Capivara, e do pioneiro-mor José Theodoro de Souza, sendo irmãs as mães dos três, respectivamente Bernardina Jesuína de Santa Catarina, Mariana Rosa da Assunção e Maria Teodora do Espírito Santo (Projeto Compartilhar, Família Bernarda Maria de Almeida). 
Andrade se tornou importante nome na história local, de 1872 a 1891, elegido o 1º Juiz de Paz de Santa Cruz, em 1875 – pleito anulado em 1876, depois eleito vereador em 1876 para a primeira legislatura (1877/1880), consagrando-se como o primeiro Presidente da Câmara, e reeleito para o cargo em outras oportunidades disputadas. Em 1884 integrou o Rol de Ilustres, pela Câmara Municipal, ofício de 12 de novembro de 1884, para compor a comissão responsável pelas obras da Igreja Matriz. Respondeu, ainda, por cargos púbicos em nomeação: Delegado de Polícia – 1877 (Diario de S. Paulo, 25/11/1877: 2), Coletor de Rendas – 1879, e, designado Presidente do Conselho da Intendência Municipal – 1890 até sua morte em 1891.
Certidão Eclesial de Casamento do Joaquim Manoel de
Andrade e Umbelina Ferreira do Nascimento 
Joaquim Manoel de Andrade casou-se com Umbelina Maria de Jesus ou Ferreira do Nascimento, em São João do Jaguary - atual São João da Boa Vista - SP, aos 09 de novembro de 1845 (Curia Diocesana de São João da Boa Vista, Matrimônio, apud Henrique Dias da Silva Junior - pesquisador/historiador - Assis-SP, CD: A/A 05/09/2017), sendo ela nascida em Pouso Alegre - MG, onde batizada aos 12 de maio de 1833, com a idade de 13 dias, (Batismos, Livro 1825/1837: 285, https://www.familysearch.org/), filha de Manoel Antonio Rodrigues e Maria Ferreira, sendo testemunhas do casamento Domiciano José de Andrade e Manoel Antonio Rodrigues. O casal teve os seguintes filhos conhecidos: 
-Maria (Batismo: São João da Boa Vista, LB 1833/1858: 134, aos 04/04/1847 - Records Preservation);
-Bernardino (Batismo: São João da Boa Vista, LB 1833/1858: 159, aos 02/04/1849 - Records Preservation);
-José (Batismo: São João da Boa Vista, LB 1833/1858: 181, aos 24/04/1851 - Records Preservation);
-Manoel (Batismo: Botucatu, LB 1849/1856: 54, aos 30/07/1853, idade de seis meses - Family Search); 
-Theodora (Batismo: Botucatu, LB 1856/1859: 81, aos 04/09/1858, idade de seis meses - Family Search);
-Joaquim (Batismo: São Domingos, LB 1859/1879: 68, 05/02/1860, idade de 20 dias - Family Search); 
-Antonio (Batismo: São Domingos, LB 1859/1879: 85, aos 01/09/1861, idade de oito dias) - Family Search;
-João (Alistamento Eleitoral: SCR.Pardo, ano 1890, nascido por volta 1862); 
-Silvestre (Matrimônio: SCR.Pardo aos 31/10/1891, nascido por volta de 1868); 
-Pedro (Alistamento Eleitoral: SCR. Pardo, ano de 1891, nascimento 1869); 
-Benedito (Batismo: SCR. Pardo, LB 1872/1879: 11, aos 26/01/1873, idade de cinco meses - Family Search). 
-Thereza (Batismo: SCR Pardo, nascimento em 1875).
(SatoPrado, atualizações 2024). 
Andrade faleceu aos 26 de dezembro de 1891, com a idade de 66 anos, em plena atividade política, como Presidente da Intendência do Município, e seus despojos acham-se sepultados na Igreja Matriz de São Sebastião juntamente com os de sua mulher, Umbelina Maria de Jesus, morta em 09 de agosto de 1896. 
Não se tem notícia oficial que o chefe do clã dos Andrades, em Santa Cruz, pertencera à Guarda Nacional; no entanto, uma referência do Padre Andrea Barra em São Domingos, aos 21/02/1858, identifica-o Major e escravagista, na celebração de Missa de 7º Dia pela 'alma do escravo Pae Manoel Thiburcio' (Eclesial, Livro de Batismos, Matrimônios e Óbitos, SCR. Pardo, 1856/1884). 
Noutra alusão foi mencionado como "Capitão" (Correio Paulistano, 17/07/1941: 12), todavia as ausências de referimentos oficiais inviabilizam qualquer assertiva, quando se sabe de três homônimos no sertão paulista da época.
Joaquim Manoel de Andrade teve grande importância na história local e a ele quase tudo se deve na formação do lugar e até transformou-se, nas lendas e tradições, como cofundador de Santa Cruz, o que histórica e documentalmente não procede. 

2. Emygdio José da Piedade
Para o Almanaque da Província de São Paulo, edição de 1888, Santa Cruz do Rio Pardo:
"Creado o municipio em 1876, tem desde então para cá prosperado admiravelmente sob a immediata proteção e direção do notavel paulista Exmo. Sr. Coronel Emygdio José da Piedade, illustrado representante deste 5º districto na Assembléa Provincial" (1888: 623). 
Emygdio José Piedade nasceu em Sorocaba - SP, aos 25 de maio de 1832 com registro de batismo de 03 de junho do mesmo ano, filho do Major Antonio José da Piedade e de dona Rita Maria da Conceição, casado aos 21 de abril de 1853 com Francisca Emilia Leonel Ferreira ou Ferreira Leonel "dos Leonéis de Itapetininga, era tia do General Ataliba Leonel" (Aloisio de Almeida, 1960: 56), nascida por volta de 1833, em Itapetininga, filha legítimas do Tenente Coronel José Leonel Ferreira e dona Maria Perpétua de Siqueira.
Piedade estudou Teologia Dogmática e Moral, em São Paulo, lecionou Latim (Aloisio de Almeida, 247: 52-56), e foi Serventuário da Justiça em Faxina - Itapeva, renunciando a vitaliciedade em favor do filho Augusto (RG, U 1131, 1882/1883: 16-17).
Filiado ao Partido Conservador se elegeu por sucessivas e alternadas vezes deputado provincial paulista, iniciado na '18ª. Legislatura 1870/1871, 3º Distrito Imperial'. Após a República filiou-se ao Partido Republicano Paulista.
No primeiro mandato parlamentar assumiu a Comissão de Câmaras Municipais, na condição de membro, com importantes realizações para São Sebastião do Tijuco Preto - Piraju, Lavrinhas, Ribeira e São João Batista do Rio Verde - atual Itaporanga, Faxina - hoje Itapeva, além de comprometido com aberturas de escolas, de estradas para diversas povoações em formação, inclusa Santa Cruz, aonde viria fixar residência.
Com destacada participação legislatória, disputou e foi eleito para o mandato 1874/1875, via 3º Distrito Imperial.
Emygdio foi um grande paulista. O estudioso jesuíta Aluísio de Almeida forneceu sua exata dimensão provincial, como o primeiro deputado do centro sudoeste/oeste paulista, com atuações parlamentares para toda a região.
De 1876 a 1880 ocorreu hiato na carreira política do deputado, dedicando-se às atividades particulares e aos cuidados com Santa Cruz, onde passara a residir, trabalhando nos bastidores da Assembleia para melhorias administrativas e conquistas de serviços públicos, além da elevação do lugar à condição de vila e município.
Em 1876 conseguiu a instalação da Agência do Correio local, e nomeado o seu primeiro Agente (Correio Paulistano, 27/09/1877: 1). Identificado num antigo mapa santa-cruzense, de 1900, indica a agência na atual Rua Duque de Caxias (CD: A/A, Documentos Municipais Diversos para Santa Cruz do Rio Pardo).
Previstas as eleições municipais para o ano de 1876, Emygdio organizou o Partido Conservador para o embate eleitoral e obteve maioria na Câmara, além da conquista para o Juizado de Paz.
Os afazeres públicos de Emygdio em Santa Cruz podem ser acompanhados em diversas publicações oficiais do Governo Provincial e Assembleia Legislativa, além dos jornais paulistanos.
Retornou à Assembleia Provincial, legislatura 1882/1883, pelo 5º Distrito que abrangia a região.
Desta disputa escreveria Queiroz Filho: "Em 4-11-1881 (cfr Livro de Atas da Câmara Municipal) disputavam a eleição municipal um Tenente-Coronel (Emigdio José da Piedade), um Capitão (Tito Corrêa de Melo) e um Coronel (Joaquim Leonel Ferreira), tendo vencido o primeiro" (1966: 204 – notas 17).
No início do mandato, 1882/1883, o deputado Emygdio fez veemente pronunciamento indigenista:
"Deputado Emygdio José da Piedade, da tribuna da Assembléia Legislativa Provincial de São Paulo, em se fazer aldeamentos na Comarca de Lençóes (Lençóis Paulista):
-Assemblea Provincial - 23ª sessão ordinaria, 23 de Fevereiro de 1882
-Entra em 1ª discussão o projecto de nº 146 de 1880, creando dois aldeamentos de cateche [se] de indios, na comarca de Lençoes.
-O sr. Piedade: – (ilegível) mais selvagens como os coroados e outras tribos ferozes.
-(ilegivel).
-Esta limitação, traz falta dos recursos naturaes que ellas tinham á sua disposição, e que hoje escapam rapidamente, é o que succede! Os indios (ilegível) ás criações dos moradores que temerariamente se tem collocado á aqueles terrenos, e o que tem conquistado áquelles selvatticos habitantes. D'ahi tem resultado grandes prejuizos aos moradores, que muitas vezes são victimas, e represalias d'estes contra aquelles, ceifando viddas que poderiam ser aproveitadas.
-O projecto autorisa ao governo a providencia sobre aldeamento e catecheses.
-Não será difficil este serviço, desde que o governo estabeleça em ponto determinado, para o aldeamento e meio que attraiam os indios. Elles serão chamados ao estado de sociedade, poderá prestar bons serviços e servirão de guarda á população contra a incursão dos habitantes bravios d'aquelle desconhecido sertão, que fazem estragos com a menor resistencia.
-Resido em Santa Cruz do Rio Pardo à cerca de 6 anos. Durante o periodo, á excepção do anno passado, foram victimas muitas pessoas. Em 1880, de uma só ves assaltaram a lavoura de um daquelles noradores e mataram uma familia composta de 15 pessoas. Pouco depois assaltaram outro roçado e mataram 9 pessoas, e assim em diferentes tempos e lugares, fizeram sempre grande numero de victimas.
-O aldeamento destes indios, nas condições expostas é um proveito duplo! Chama-os ao gremio social modificando os seus costumes pelo trabalho, e tornando-os garantia contra a aggressão dos selvagens a que me referi. Entendo, sr, presidente, que a assemblea deve autorisar o governo a attender a este serviço, embora pese alguma cousa no orçamento. Se temos outras despezas e serviços a que attenderemos com liberalidade, não devemos (?) lamentar (?) o emprego de qualquer quantia em uma obra de civilização qual de catechizar em grande numero de infelizes que vivem errantes sem vantagens para alli com prejuizos da sociedade." (Correio Paulistano, 20/03/1882: 1).
A proposta ou defesa do parlamentar Emygdio consistia no uso da mão de obra indígena, para 'prestar bons serviços', e ser a garantia contra agressões de outros índios, ou seja, a valia do índio amansado contra o índio bravio.
Talvez a proposta de Emygdio nem seja tão distorcida, considerando a realidade da época, sabendo que em 1902 o semanário santa-cruzense, Correio do Sertão, num editorial mais absurdo, recomendava para a catequização indígena caingangue: "Já que não podemos cathechisal-os com amor, com paz, com abraços, cathechisemol-os á bala." (Correio do Sertão, 28/06/1902: 1).
A prestação de bons serviços significava 'mão de obra indígena compulsória, gratuita, visando a cristianização do índio e sua inclusão social'. 
Com forte rejeição em São Pedro do Turvo, pouco espaço em Campos Novos Paulista, também em Santa Cruz, Emygdio sofreria dura resistência dos liberais comandados pelo Capitão Tito, deputado e chefe político em Botucatu, representado em Santa Cruz por Jacob Antonio Molitor, dissidente conservador, que aspirava o mando político local.
O Deputado Emygdio não pacificou os conservadores rebeldes santacruzenses, com votação aquém do esperado em 1883, valendo-lhe, todavia, o apoio do itapetiningano Manoel Cardoso (Correio Paulistano, 03/10/1883: 3), igualmente válido para a sua reeleição, 25ª Legislatura - 1884/1885, pelo 5º Distrito.
Contando sempre com votos externos, Emygdio prosseguiu vitoriosa carreira política, com interrupção entre 1889 a 1895, para o retorno e, enfim, encerramento político na legislatura 1904/1906.
Residente em Santa Cruz, importante e partícipe membro da sociedade local, Emygdio foi membro da Comissão de Ilustres indicado pela Câmara ao Governo de São Paulo (Ofício de 12/11/1884), para integrar o grupo responsável pelas obras da Igreja Matriz.
Também, nos tempos santa-cruzenses, Emygdio pertenceu à Guarda Nacional, primeiro como Tenente Coronel do 5º Distrito de Botucatu/Regional, depois Comandante entre 1884/1886, e Coronel Comandante Superior da Guarda Nacional de Botucatu e Lençóis Paulista, pelo Decreto de 20 de outubro de 1888 (RG, BN 1033 – 1888/1889: 26).
"Á Emygdio José da Piedade
-Dom Pedro por Graça de Deus e Unanime Aclamação dos Povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brazil. Faço saber aos que esta Minha Carta Patente virem que Hei por bem Nomear o Tenente Coronel Emygdio José da Piedade para o posto de Coronel Commandante Superior da Guarda Nacional das Comarcas de Botucatú e Lençóes, na Provincia de São Paulo, e como tal gosará de todas as honras, privilegios, liberdades, isenções e franquias que direitamente lhe pertencerem; Pelo que Mando à Autoridade competente que lhe dê posse depois de prestar o devido juramento, e o deixe servir e exercer o dito Posto; aos Officiaes Superiores que o tenhão e reconheção por tal homem e estimem, e a todos os seus subalternos que lhe obedeção e guardem suas ordens, no que tocar ao serviço Nacional e Imperial tão fielmente como devem e são obrigados. Em firmeza do que, lhe Mandei passar a presente Carta por Mim assignada, que se cumprirá como nella se contem, depois de selada com o sello grande das Armas do Imperio. Dada no Palacio do Rio de Janeiro, em dezesete de Novembro de mil oitocentos oitenta e sete, sexagenário setueno da Independencia e do Imperio, Imperador Pedro 2º (...)." (AESP, Registros de Patentes da Guarda Nacional, 1885/1894: 25 a-v. 72 AESP, Registros de Patentes da Guarda Nacional, Livro 1885/1894, 02/12/1892). 
Com o advento republicano, ratificou-se a outorga:
"Ao Coronel Emilio [Emygdio] José da Piedade (Botucatu e Lençoes)
-O Ministro interino dos Negócios da Justiça, em nome do Vice Presidente da Republica, resolve declarar que por Decreto de 25 de Novembro findo foi mandado agregar o oficial acima declarado, ao Estado maior do Commando superior da Guarda Nacional da Comarca da Capital de São Paulo. Capital Federal, em 02 de dezembro de 1892. Fernando Silva." 
Sempre presente ou participante em todos os acontecimentos sociais, religiosos e políticos de Santa Cruz, Emygdio ocupava a presidência da Câmara Municipal em 1889, quando anunciado o Golpe Militar de 1889 que derrubou o Império e instaurou a República. No ato fez o pronunciamento recomendando resignação.
Eleitor em Santa Cruz, conforme alistamento eleitoral de 1890, Emygdio identificava-se negociante, e era residente à 'Rua do Coronel Piedade' - morador mais ilustre, oficializada posteriormente como 'Rua Coronel Emygdio José da Piedade'. 
Sem espaço político em Santa Cruz, transferiu domicilio para São Paulo, em março de 1891, filiando-se ao PRP, noticiado em vários documentos oficiais como político e agregado à Guarda Nacional, e depois no Comando Superior da mesma, conjuntamente à frente dos paulistas na Revolução Federalista de 1892/1893.
Manteve-se politicamente ativo.
No ano de 1896 foi Procurador do Gabinete de Leitura de Faxina (DOSP, 20/02/1896: 2), e eleito Membro da Comissão de Colonização e Imigração para o Estado de São Paulo, na sessão ordinária de 11 de junho de 1896, do Congresso do Estado, pela Câmara dos Deputados (DOSP, 12/06/1896: 7).
Com a queda do Coronel João Baptista Botelho, em 1901, Emygdio manteve-se independente do grupo ascensionário de Costa Junior/Abreu Sodré. 
Abdicado da política desde 1906, Emygdio numa visita a familiares em Espírito Santo do Turvo, faleceu aos 30 de março de 1910, por "(...) síncope cardíaca, aos 79 anos de idade, deixando descendentes" (Cartório de Registo Civil, Espírito Santo do Turvo, Certidão de Óbito nº 37, Livro C-3, fls. 144).
O Coronel Emygdio José da Piedade tinha autorização para ser sepultado, juntamente com a esposa, na Igreja Matriz de Santa Cruz do Rio Pardo - Lei nº 83, de 01/04/1889, no entanto abriu mão dessa concessão, tanto para a esposa - falecida em 1900, quanto para si.
Deixou os seguintes filhos:
-Augusto César da Piedade - Coronel, casado com Dona Cândida Macedo da Piedade;
-Minervina da Piedade, casada com o Coronel João Batista de Oliveira Melo;
-Acácio da Piedade - Coronel, casado com Dona Leocádia de Mello Piedade, ou Dona Leocádia Bueno Pimentel, conforme também conhecida;
-Arlindo Crescencio da Piedade - Coronel, casado com Dona Hermínia Romano (falecida aos 23/06/1902), e mais outros dois matrimônios conhecidos;
-Godofredo José da Piedade, faleceu solteiro;
-Rosalina da Piedade que foi casada com o Coronel Emygdio [José] Dias de Almeida;
-José Brasil Paulista da Piedade, casado com Dona Maria Ramos;
-Albertina da Piedade, casada com o Major Ernesto Trindade;
-Dona Maria Perpétua da Piedade, casada com Francisco Clementino Gonçalves da Silva, Coronel também identificado por Clementino Gonçalves da Silva;
-Emygdio [José] da Piedade Filho, Major, casado;
-Maria da Conceição Piedade, apelidada Sancha, que foi casada com Francisco Antonio Pucci.
(Certidão de Óbito nº 37, Livro C-3, fls. 144, Cartório Registro Civil Espírito Santo do Turvo, estando entre os seus filhos "(...) uma neta de nome Alzira filha de sua filha de nome Minervina ..." ). Minervina faleceu aos 20/11/1906 (Correio Paulistano, 21/11/1906: 4) e ausente da relação de filhos, assim o também falecido Godofredo. Dos genros e noras, citações de Aloisio de Almeida, Abril/Junho 1960: 55-56 -Volume 247: 2-65).
O Cel. Emygdio marcou época em Santa Cruz, onde ocupou, a seu tempo, todos os principais cargos públicos, por nomeações ou eleições, mesmo aqueles sem remunerações (Aloisio de Almeida 1960: 52-56).

- Suspicácias sobre o coronel deputado

Inegável, o Coronel Emygdio José da Piedade fez muito, politica e administrativamente por Santa Cruz, evidentemente, também cuidando os interesses próprios.
Apesar do tanto que fez por Santa Cruz, Emygdio e familiares meteram-se em rumorosos casos de atuações políticas, em causa de interesses particulares e de envolvimentos em ilícitos, também na vida pública.

A família, dona de entreposto comercial em Santa Cruz do Rio Pardo, tinha interesses em aberturas de estradas de rodagem desde Avaré e Faxina, passando por Piraju, para o fortalecimento dos seus negócios, que obviamente muito favoreceu a localidade, conhecida, então, como 'empório do sertão'.

No caso emblemático da elevação de Santa Cruz à freguesia e não São Pedro do Turvo, Emygdio foi bastante favorecido no episódio.

Se a condição de freguesia ocorresse para a Capela São Pedro do Turvo, a estrada viria para lá diretamente de Lençóis rumo a Campos Novos, despassando o rio Turvo próximo ao despejo do Alambari, não passando pela urbe Santa Cruz, nem atendendo os interesses dos Piedade, e sim do deputado dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho, num prolongamento terrestre desde a cidade de Rio Claro, onde a ferrovia já funcional em 1875.

Dos acontecimentos, se partícipe, dificilmente se saberá disto, Emygdio poderia influir em decisão favorável a São Pedro do Turvo, porém não o fez, e, desde então, sua votação no lugar tornou-se pífia, sempre o último colocado.

À mesma maneira marcante o Coronel Emygdio, fazendeiro na região de Santa Cruz e Espírito Santo do Turvo, em 1881 procedera ilegal ao adquirir terras devolutas no Vale do Peixe, de Francisco de Paula Moraes, genro de José Theodoro de Souza. Emygdio adquirira a Fazenda Pomba do Futuro, enquanto o filho Augusto César [Cezar] da Piedade a Pomba de Prata (Nogueira Cobra, 1923: 71), e isto o tornava mudo diante das bravatas do delegado e político 'santa-cruzense', Capitão Jacob Antonio Molitor.

Ao Deputado incidiu, ainda, o roubo de uma novilha pertencente a Salvador José Domingues Melchior (Correio Paulistano, 03/06/1884: 2), assim acusado. 

Entretanto, o caso mais rumoroso, sem prévios na história santa-cruzense e fartamente documentado, teria sido a participação familiar dos Piedade na facilitação de fuga dos presos, os irmãos Pedro e Joaquim Fortunato, da Cadeia de Santa Cruz, na madrugada de 03 para 04 de setembro de 1881 (Correio Paulistano, edição de 09/05/1884), atendendo aos interesses do patriarca, nos tempos do delegado Manoel Cândido da Silva, que apenas procedeu atos de rotina, sem inquérito policial, sindicâncias ou processo administrativo. 
Caso antigo. No início de 1870 os irmãos Fortunato foram acusados e pronunciados cúmplices numa matança de índios, na localidade de Faxina (Correio Paulistano, 04/12/1873: 2) onde os Piedade tinham interesses, inclusive no livramento de suas terras dos perigos indígenas. 
Evitando prisão flagrante, os Fortunato homiziaram-se em Santa Cruz do Rio Pardo, sendo presos em 1873 e encaminhados a Botucatu e depois à comarca do crime para julgamento, que os considerou libertos, ditam as memórias, por influência do coronel deputado.
Posteriormente os mesmos Fortunato envolveram-se noutro crime, na localidade de São Pedro do Turvo (RG, BN 1024, 1879/1880: A 12-23), ocorrendo-lhes a prisão na cadeia de Santa Cruz, logrando fugas por facilitação:
"Evadindo-se da cadêa desta villa os criminosos: Pedro e Joaquim Fortunato em setembro de 1881, o delegado que então corria Manoel Cândido da Silva procedeu o auto do corpo de delito na cadêa, e o delegado Nicolao Barreiros abriu este inquerito, do qual algum tempo depois, de demittido Nicolao, prosseguiu o delegado nomeado Francisco Antonio de Castro, chegando a colher provas." (Certidão datada de 24/04/1884, emitida, a pedido, por José Manoel de Almeida, tabelião do público judicial e notas, de cível e crime – publicação Correio Paulistano, 09/05/1884).
O Coronel Emygdio, os filhos Arlindo e Godofredo e o genro, alferes João Baptista de Oliveira Mello, seriam os responsáveis pelas escapula dos Fortunato, segundo os testemunhos de Francisco de Paula Martins, Salvador José Domingues Melchior e Modesto Pedro Claro, além de outros depoentes que apontavam o Coronel no roubo da novilha de Melchior. 
Com as exonerações dos delegados Manoel Cândido da Silva, Nicolau Tolentino Roiz¨ Barreiros e Francisco Antonio de Castro, "Foi nomeado o cidadão Jacob Antonio Molitor para o logar vago de delegado de policia da villa de Santa Cruz do Rio Pardo" (Correio Paulistano, 07/02/1884: 2).
De imediato à posse, Molitor investiu contra a família Piedade. A autoridade ou posição social do deputado não meteu medos ao delegado que, então, agilizou os inquéritos policiais, além de revelar aos jornais da capital o envolvimento de Emygdio em negociatas partidárias (Gazeta Liberal, 10/04/1884, apud citação de Augusto Piedade – 21/04/1884, pelo Correio Paulistano 04/05/1884: 2-3).
O deputado coronel acusou o golpe, e devolveu a rês que teria sido roubada, informando que a mesma se encontrava em sua propriedade, por ordem do dono, em pagamento de dívida, mas, nunca convenceu. 
Da tribuna da Assembleia, Emygdio procurava desqualificar o algoz e pedia providências do governo provincial para sua exoneração, além de incumbir o filho Augusto para revidar, acusar e desacreditar o delegado Molitor, em publicações na imprensa paulista e denúncias à chefatura de polícia. 
Molitor chegou a dar voz de prisão a dois filhos de Emygdio, defronte à residência deste, em Santa Cruz, acusados da facilitação para a fuga dos presos, ação retirada e transformada em intimação, a pedido de cidadãos e políticos presentes.
Na ocasião, Molitor teria destratado publicamente o deputado que, apesar de influente e em revide, não conseguiu a exoneração do desafeto, nem sensibilizou a promotoria pública. O governo provincial, em mãos dos liberais, procedia conforme a vontade regional do deputado Tito Correa de Mello, e o Molitor permanecia intocável. 

Apenas em 1885, quando os conservadores assumiram o governo provincial, Molitor foi exonerado dos cargos públicos ocupados, com certo alívio para a família Piedade, que não mais teria o aborrecedor. O lenitivo maior aos Piedade, apenas quando, no mesmo ano de 1885, extinguidos os processos crimes e encerrado o administrativo, que apontava o soldado José Sebastião Domingues conivente com a fuga dos presos (RG BN 1030, 1885/1886: A 7-15), sem menção aos responsáveis pela guarda da cadeia, Antonio Meirelles da Silva e Antonio Nogueira, ou validação da confissão do preso Joaquim Fortunato: "Della evadimos, é certo, mas o fizemos levados pelos conselhos e auxillios de Carlos Alves de Campos, que proporcionou-nos os meios para isso precisos" (Correio Paulistano, 09/05/1884: 2).

Joaquim Fortunato mudaria seu nome para Joaquim Messias Dutra.
De outro acontecimento, trata a história regional que, em 1893, o Coronel Emygdio José da Piedade teria desviado recursos públicos, quando no Comando Superior da Guarda Nacional e à frente dos paulistas na Revolução Federalista.
Na ocasião teria Emygdio apresentado o coronel campos-novense, Francisco Sanches de Figueiredo, ao Presidente do Estado de São Paulo, sob a argumentação do temor "que os sertões do Paranapanema viessem a soffrer com a invasão das tropas federalistas" (Nogueira Cobra, 1923: 118-119), conquistando grande soma em dinheiro e dezenas de carabinas para guarnecer as sentinelas do lado paulista nos pontos julgados vulneráveis.
Finda a Revolução, sem nenhum tiro oficialmente disparado, o Coronel Sanches guardou para si as carabinas e munições, e do dinheiro recebido, sessenta contos de réis, prestou contas apenas da metade que afirmou ter recebido, todavia contestado pelo advogado Nogueira Cobra:
"E os outros trinta onde foram parar! Na algibeira do portador do cheque que, em companhia do destinatário da quantia, foi recebel-a no banco. O chefe político de Campos Novos dizia que achou exquisito o caso, mas não teve remédio senão concordar com a divisão a meio, pois que o sócio era graúdo, cujo nome declinava; contra esse, cousa alguma podia fazer" (Nogueira Cobra, 1923: 120, nota 1).
O Coronel Emygdio José da Piedade seria o 'sócio graúdo'.

3. Joaquim José Botelho
Até 2010 um dos nomes esquecidos da política santa-cruzense, o coronel Joaquim José Botelho, foi o primeiro representante e chefe político do Partido Liberal em Santa Cruz, vinculado ao coronel Francisco Dias Baptista, líder político em toda a comarca de Lençóis Paulista.
Joaquim nasceu em Cabo Verde – MG, em 1838, filho de Antonio Botelho de Carvalho e Maria Theodora do Valle (Botelho - Luiz José e Deolice, 2015: 86).
Primo do coronel João Baptista Botelho, os pais eram irmãos, Joaquim chegou a São Pedro do Turvo em 1852, quando seus pais por lá fixaram residência, assumindo liderança política em Santa Cruz do Rio Pardo, como líder político em 1874, destacado em 1876 na primeira eleição municipal do lugar, sob forte influência do coronel Francisco Dias Baptista, nome de maior importância na comarca de Lençóis Paulista. Sob sua liderança local, em 1876, o Partido Liberal disputou e perdeu a eleição municipal santa-cruzense. 
Com a derrota política de 1876, talvez Botelho tenha sofrido sua primeira punição partidária, ao ser nomeado subdelegado de polícia para a freguesia de São Pedro do Turvo e não para a vila de Santa Cruz do Rio Pardo (Diario de S. Paulo, 16/02/1878: 1). Não lhe foi de todo ruim, possuía fazenda próxima a São Pedro do Turvo e, por lá, lá tinha interesses.
Mas, ainda manteve prestígio político, e, aos 13 de julho de 1879, estava à frente dos liberais santa-cruzenses numa reunião em Rio Novo - Avaré, em apoio político ao capitão Tito Correa de Melo, de Botucatu, e ao advogado lençoense dr. Francisco Martins da Silva (A Constituinte, 01/11/1879: 3), numa clara dissidência política ao coronel Francisco Dias Baptista na comarca.
O partido santa-cruzense, apesar de vinculado ao receado coronel Francisco Dias Baptista, não desprezava a força regional do capitão Tito Correa de Mello, fazendeiro, político mandatário botucatuense, situações estas notadas no pleito provincial de 1879, quando afinados à candidatura de Correa Mello para a 'Assembleia Provincial'. 
Botelho, apesar da dissidência em curso, foi nomeado 'Agente de Correio', no lugar do exonerado político conservador coronel Emygdio José da Piedade (Correio Paulistano, 02/10/1879: 2); porém lhe sobreveio-lhe o desgaste político ao se colocar contrario à truculência do coronel Dias Baptista que, às vésperas das eleições municipais de 1880, com seus asseclas, invadiu Santa Cruz do Rio Pardo:
"Eleição Municipal em Santa Cruz do Rio Pardo
-A prudencia dos conservadores desta villa deve-se não ter havido ali scenas iguaes as do Jahu, por occasião do processo eleitoral.
De pessoa fidedigna recebemos a seguinte communicação:
-Transcrição-
No dia 28 de Junho, sob a presidencia do segundo Juiz de paz, Luiz Antonio Rodrigues, organisou-se a mesa parochial, sendo eleitos para mesarios dois conservadores.
No dia 29, quando o povo se achava na igreja, ouvindo a missa conventual, entrou o coronel Francisco Dias Baptista, acompanhado de quarenta e cinco capangas todos armados, trazendo dois delles bandeiras vermelhas, marchando á dois de fundo, com as armas em punho e bandeiras desfraldadas; rodearam a egreja e desfilaram pelas ruas da villa, indo todos apear-se na casa do delegado de policia Nicolau Tolentino Rodrigues Barreiros, donde logo depois e do mesmo modo, dirigiram-se para a casa do primeiro supplente do juiz municipal, Theodoro de Camargo Prado. Pouco depois, distribuidos em grupos de oito e dez, armados de garruchas, facões e porretes, passeavam pelas ruas.
No dia 30, á tarde, foi novamente a villa invadida por um outro grupo de vinte e quatro homens, armados de garruchas, rifles e espingardas, o qual, tambem de bandeira vermelha passeou pelas ruas e foi recolher-se á casa do dito juiz municipal.
Sob taes auspicios ia se proceder a eleição quando, para maior escandalo, a maioria da mesa, resolveu fazer a chamada pela qualificação deste anno, finda no dia 28, depois de organizada a mesa, sendo que a convocação havia sido feita pela qualificação do anno passado.
Como era natural, esta absurda resolução foi recebida com vivos protestos dos conservadores; entretanto, para evitar desordens e derramamento de sangue, em vista do estado dos animos, concordaram em adiar-se a eleição, para o fim de consultar-se o governo, sendo designado o dia 7 de Setembro para continuar a eleição." (Correio Paulistano, 15/07/1880: 1). 
Somou-se à isto, Botelho ser este contra as pretensões do município, da então Santa Bárbara do Rio Pardo, avançar divisas sobre território de Santa Cruz, com apoio do bilioso coronel Dias Baptista. 
Botelho foi exonerado exonerado do cargo de 'Agente do Correio' aos 16 de novembro de 1880 (Correio Paulistano, 19/11/1880: 2), quando já não se apresentava mais como o prestigioso chefe político, sem importância na vitória do Partido Liberal nas eleições municipais de 1880; afastado pelo rancoroso Dias Baptista e substituído pelo delegado de polícia Nicolau Tolentino Rodrigues Barreiros.
A despeito de tudo, o coronel Joaquim José Botelho, em 1883 encabeçou a lista de abaixo assinados dos cidadãos que pediam às autoridades a instalação de Comarca para Santa Cruz do Rio Pardo (ALESP, PR 84_006-007, documento de 25 de setembro de 1883), que igualmente contou com a atuação do Deputado Emygdio José da Piedade. 
Joaquim José Botelho foi casado com sua parente Maria Bárbara de São José - filha de José Botelho de Souza e Luiza Thereza de Jesus, enviuvado casou-se com outra aparentada, Maria Cândida de São José. Em sua vida privada teve propriedades e vínculos em São Pedro do Turvo, porém celebrizou-se chefe político liberal em Santa Cruz, tido cidadão honrado e elogiado até pelos conservadores (Correio Paulistano, 10/04/1884: 1-2 – por referência).

4. Marcello Gonçalves de Oliveira 
Nome praticamente desconhecido na história santacruzense, dele se sabia apenas nome dado a uma rua e praça agregada; hoje nem isto lhe resta.
Resgatada a história, o coronel Marcello surge identificado como líder político, ocupante de cargos públicos por eleições - vereança e juiz de paz, e nomeações, como subdelegado de polícia, inspetor literário e comandante da Guarda Nacional local, nesta com participação na 'Revolução Federalista de 1892', com envio de voluntários santa-cruzenses (Correio Paulistano, 18/07/1894: 2 – referências).
Marcello, nasceu em Itapetininga - SP, filho de Antonio Gonçalves de Oliveira e Vicencia de Oliveira Lima, casado com Malvina de Oliveira Machado, na localidade de Lençóis Paulista, em 1º de janeiro de 1879, sendo ela filha de major Esperidião de Oliveira Lima e Maria Leopoldina de Oliveira, natural daquela localidade. 
D. Malvina era irmã de Dona Leocádia, esposa do Coronel Moyses Nelli (DOSP, 27/05/1919: 3.260).
Fazendeiro em Santa Cruz, o coronel foi o primeiro nome importante na formação do Partido Republicano Paulista - PRP local, pelo qual eleito vereador em 1886. O golpe militar de 1889, instituindo a república no Brasil, promoveu a ascensão do coronel Marcello e selou o fim da influência política do coronel Emygdio José da Piedade, apenas o Joaquim Manoel de Andrade mantendo-se intocado pela respeitabilidade adquirida, idade, e simpatia aos republicanos, de forma a ser nomeado o primeiro intende no município, uma deferência.
O advento republicano tornou o coronel Marcello o 'prestigioso chefe político' perrepista local, até a primeira crise interna, optando por resignar-se do cargo (Correio Paulistano, 10/12/1890: 3), através de carta datada de 26 de novembro de 1890, por se sentir desautorizado politicamente, com a demissão do promotor público local e o recolhimento do sargento comandante do destacamento.
O então tenente-coronel João Baptista Botelho, agente principal da queda de Marcello, assumiu o lugar, porém, não resistiu contragolpe acaudilhado pelos irmãos Antonio da Costa Junior - fazendeiro e deputado federal, e o dr. Augusto José da Costa - juiz de direito da comarca.
O coronel Marcello retornou ao quadro político em 1892, com sua equipe, no lugar de João Baptista Botelho e sectários; mas, João Baptista Botelho sustentou-se delegado de polícia, e membro da Intendência Municipal, enquanto o coronel Marcello sustentava-se como o 'prestigioso chefe político'. Aos 16 de julho de 1894, o coronel Marcello ofereceu, em sua residência, marcante recepção aos heróis santa-cruzenses da Revolução Federalista, com as presenças do juiz de direito da comarca, dr. Augusto José da Costa, e de outras autoridades. Marcello estava como o ilustre 'Comandante da Guarda Nacional local', e no ano seguinte, aos 30 de novembro de 1895, seu nome aparecia como '2º Juiz de Paz' (O Paranapanema, 30/11/1895: 3). 
Em sessão especial da Câmara, datada de 07 de janeiro de 1896, foi declarado eleito 'Juiz de Paz' (Câmara, Livro Ata). Posteriormente, aos 28 de novembro do mesmo ano, em sessão extraordinária, a Câmara enlutava-se pelo falecimento do coronel Marcello Gonçalves de Oliveira, e homenageia-o com o nome da 'Praça onde o Largo 13 de Maio'. 
O coronel deixou bens a inventariar, inclusive no Estado do Paraná, conforme citação de 28 de maio de 1897 (A República, Curitiba - PR, 28/05/1897: 2-3). Sua ausência trouxe ao Baptista Botelho nova oportunidade para consolidar-se líder perrepista local.
Malvina Gonçalves de Oliveira, enviuvada, casou-se em segunda núpcias aos 02 de dezembro de 1899, na cidade de Santa Cruz do Rio Pardo, com o também viúvo Manoel Lima (Matrimônio Livro de 1893/1900: 95).
-o-

O coronel João Baptista Botelho

Histórico familiar e sócio-comunitario
Edifício público  Fórum, Câmara e Quartel
(Delegacia e Cadeia)
 inaugurado em 1901 
Do que se conhecia sobre o coronel João Baptista Botelho, quase tudo especado nas publicações do hebdomadário Correio do Sertão e, posteriormente, somadas às tradições, com mínima consistência histórica.
Documentos levantados revelam o coronel Baptista Botelho e seu tempo, sendo ele nascido em Lençóis Paulista, aos 27 de dezembro de 1856 (Correio do Sertão 12/07/1902: 1), filho de João Botelho de Carvalho e Jacintha Porcina de Jesus.
João Botelho de Carvalho, pai do coronel Botelho, descendia de Joaquim Botelho de Carvalho, casamento em segunda núpcia com Maria da Assumpção, sendo esse Joaquim o terceiro filho do patriarca 'açoriano' Francisco José Botelho, casado com Rosa Maria 'de Carvalho' (Carvalho 1998: 77-78), nascida em Jundiaí, filha do 'madeirense' Lucas Borges de Carvalho e Anna [Maria] Nunes Cardoza. De dona Jacintha Porcina, até o momento, [10/2020], de origem incerta.
No ano de 1851 consta que o Antonio Botelho de Carvalho, irmão de João Botelho de Carvalho, o pai do coronel, participou da saga sertaneja com José Theodoro de Souza (Nogueira Cobra, 1923: 32-33), ignorado se direta ou financeiramente. 
Da mesma forma desconhecida qualquer atuação de João Botelho de Carvalho, no entanto, ambos vistos entre os pioneiros proprietários de terras em São Pedro do Turvo, região que o conquistador-mor reservara para si, familiares e aqueles que, mesmo estranhos ao grupo familiar, eram próximos da intimidade do desbravador-mor ou vinculados pelo 'compadrio'.
Baptista Botelho, com segurança documental, encontrava-se com a família na região de São Pedro do Turvo, em 1873, sendo o seu progenitor contado entre "fazendeiros de cana de assucar" (Almanak da Província de São Paulo, 1873: 448), e lá residiam outros parentes e, depois, o seu futuro sogro, Francisco Narcizo Gonçalves.
Narcizo Gonçalves residiu em Brotas - SP, e lá contraiu matrimônio com dona Maria Julia de Jesus, em 1864 (Eclesial – Matrimônios, Brotas, 22/09/1864. Livro 1844/1866: 24), nascendo-lhes primeiro Guilhermina, em 1865/1866 - ausentes os assentos eclesiais entre 1865/1866, e depois o Antonio, segundo assento de batismo, aos 15/12/1867, idade de 18 dias (Eclesial – Batismos, Brotas, Livro 1867/1869: 35). 
A família residiu, ainda, em Espírito Santo da Fortaleza (Almanak da Província de São Paulo, 1873: 447), atual território bauruense, antes da chegança a São Pedro do Turvo. 
Coronel Botelho casou-se com dona Guilhermina Brandina da Conceição, ele idade de 24 anos e ela entre os 14/15, figurando o casal em testemunhos de casamentos e apadrinhamentos de batizandos em São Pedro do Turvo, a partir de junho de 1880 (Eclesial, Batismos, São Pedro do Turvo, 29/06/1880, Livro 1: 58), já residente em Santa Cruz do Rio Pardo, trabalhando em compra e venda de terras, às vezes como intermediário e procurador de terceiros.
De família abastada, enriqueceu-se ainda mais, e meteu-se na política santa-cruzense, no ano de 1882, nomeado 2º suplente de delegado de polícia; depois membro da 'Comissão de Obras Públicas', na construção do prédio da cadeia local e juiz municipal – 1º suplente (Correio Paulistano, 02/08/1882; 28/11/1883; 09/05/1884; e outras referências).
Em 1885 nomeado 1º suplente de juiz municipal e de órfãos, até 1888, de fato, como efetivo exercente e assim referenciado (Almanach Província de São Paulo, edição 1886: 478, exercício 1885). 
Botelho filiou-se no Partido Liberal, chefiado por Jacob Antonio Molitor (Correio Paulistano, 23/09/1884: 2), o representante regional do capitão Tito Correa de Mello, partido no qual visto em 1888, ele e seu irmão Joaquim José Botelho, reconhecidos chefes liberais, em vez do Molitor, pelos egressos conservadores, Francisco Garcia de Oliveira, Miguel Antonio de Souza, Manoel Carvalho de Oliveira, Manoel Garcia de Oliveira, Antonio Caetano de Oliveira e Luiz Garcia de Carvalho (A Provincia de S. Paulo – depois Estado de S. Paulo, 26/07/1888: 2).
Ávido por terras, sua estrutura fundiária, com cem mil ou mais alqueires de terras (R.SNA, 1903 - II: 98-161), mostrava-o, além da riqueza, também poderoso e subornador:
"Havia larga margem para arbítrio na apreciação de cada caso e os legitimantes, por isso mesmo, ficavam à mercê do funccionário encarregado do serviço, sobretudo no ponto referente à cultura effectiva e morada habitual (Nogueira Cobra, 1923: 91)." 
Botelho avançava posses, alterando divisas a seu favor sobre terras devolutas ou usurpadas de legítimos donos, herdeiros ou sucessores, com datas retroativas, e de pronto fazia povoá-las através de prepostos de titularidades de falsos e mesmo inexistentes agricultores, para garantir direitos, sob caras demandas que o desapossado não tinha como suportar, ou tempo até se consumar a prescrição.
Era o chamado 'grilo articulado', e as terras lhe retornavam documentalmente limpas, numa compra simulada, quando não escrituradas mediante fraudes.
"Aventureiros agrimensores e legítimos donos das terras disputavam a posse delas, todos em busca da escritura legítima, oriundas das três grandes posses abertas por José Teodoro de Souza, no vale do Rio Pardo, Rio do Peixe e Paranapanema. No mais das vezes, estas disputas começavam nos fóruns das Comarcas recém-criadas e terminavam em terríveis tocaias, quando as sentenças finais vinham das descargas das espingardas e dos trabucos." (Rios, 2004: 27).
O coronel Botelho era homem violento, assim dito e justificado pelo Correio do Sertão: "(...) commeteu erros, não ha duvida, mas seus erros tinham uma athenuante: è que elle sendo um homem sem instrucção, atrazado, nascido e creado no cabo do machado, não sabia cercar-se do melhor elemento para governar." (Correio do Sertão, 09/04/1903: 2).
Em torno de seu poderio criaram-se loas, dentre elas, que a ele recorrera João Evangelista da Silva para proteção ao filho, Antonio Evangelista de Souza - o Tonico Lista, que na noite de 10 de junho de 1892 assassinara dois policiais de São Paulo de passagem por Santa Cruz do Rio Pardo.
Rios descreve o poder do coronel: "Ninguém aqui será preso enquanto estiver sob a proteção do Coronel João Batista Botelho. Porque ao nosso delegado falta coragem para ir buscá-lo e a preguiça não lhe permite caminhadas longas." (Rios, 2004: 28).
No entanto, o próprio coronel Baptista Botelho era o delegado de polícia, titular, por ato de nomeação do Governo de São Paulo (DOSP, 21/05/1892: 3 [2927]), sendo suplente o seu homem de confiança, Luiz de Oliveira Martins.
O coronel somente deixaria o cargo policial, a pedido, em agosto de 1894, para assumir nomeação de juiz municipal, 1º suplente mas para o exercício de fato, substituído no cargo desocupado pelo seu indicado Moyses Nelli (DOSP, 04/08/1894: 4).

-Prestigioso chefe político
Botelho assumiu a chefia perrepista uma primeira vez, no período de 1890 a 1892, quando provocou a queda do coronel Marcello Gonçalves de Oliveira, que retornaria ao cargo, com ajuda da família Costa, para nele permanecer até sua morte em 1896.
Morto o Marcello, Botelho não teve dificuldades para assumir o lugar como 'prestigioso chefe político' até 1901, quando definitivamente alijado do poder.
Em janeiro de 1897 Botelho recebeu sua nomeação como Coronel Comandante da Guarda Nacional da Comarca: "Por decreto de 21 do mez findo foram nomeados: Comarca de Santa Cruz do Rio Pardo - Commando superior. - Coronel - Comandante superior, tenente-coronel João Baptista Botelho." (DOSP, 10/02/1897: 5).
No seu tempo o coronel Botelho, como chefe político do PRP santa-cruzense, fez eleger e viu reeleito deputado estadual, o advogado dr. Cleophano Pitaguary de Araujo, nas legislaturas de 1898/1900 e 1901/1903, pelo 5º Distrito.
O coronel Baptista Botelho, no ano de 1900, dominava a política na comarca, quando a decisão do presidente da república, dr. Campos Salles, romper os compromissos políticos e quebrar a unidade partidária estadual, ato considerado intromissão indevida e, neste conflito de interesses, o presidente do estado paulista, dr. Rodrigues Alves, apoiou o Campos Salles sob a promessa da indicação do seu nome para a Presidência do Brasil.
Dentre as desavenças político-administrativas locais, avultaram-se Antonio José da Costa Junior e o seu genro Francisco de Paula de Abreu Sodré, já forças estabelecidas, ambos residentes na localidade.

-O poder contestado – dissidência 'perrepista'
A ambição de Costa Junior na liderança política local consolidara-se com a chegada de Francisco de Paula Rodrigues Alves ao governo de São Paulo, em 1900, em detrimento aos interesses do coronel Botelho, e, então, a dissidência. 
Com a cisão 'perrepista', Costa Junior, político habilidoso, detectou os insatisfeitos santa-cruzense e assumiu o diretório local em desfavor a Botelho, conforme Rios, "deposto pelos próprios correligionários de escalão superior" (Rios, 2004: 49-50).
Rios complementaria:
"Aí se iniciara a divisão política santa-cruzense: fora aberto um fosso entre as duas correntes que até há pouco tempo viviam em harmonia, numa luta que viria separar famílias, amigos, até irmãos. Luta pelo mando, pelo poder, face ao que o adversário político seria considerado inimigo pessoal." (Rios. 2004: 63).
Iniciava-se período político sangrento na história local.
Francisco de Paula de Abreu Sodré, genro de Costa Junior, firmou-se líder santa-cruzense, rompendo pessoalmente com o coronel Botelho, 'esquecido' que pouco antes, em março de 1900, ele e a esposa batizaram a Benedicto, filho do coronel e de dona Guilhermina.
O grupo fiel ao coronel Botelho, na dissidência, perdeu as eleições gerais de 1900, e para a história local isto foi uma desonra ao abatido Botelho.
O prestígio do coronel arruinara-se, e numa última reação confrontou-se com o grupo Costa/Sodré, no pleito municipal de 16 de dezembro de 1901, extremamente violento, e culminou com a acachapante vitória de Abreu Sodré.
O engenheiro/arquiteto alemão, Edmundo Krug, a serviço do governo paulista nos levantamentos hidrográficos e aberturas de estradas na região, descreveu a violência política:
"Ahi ha pessoas de posição social bem elevada, dizem-me, porem, que justamente houve lutas bem renhidas na epocha da effervecencia política, e tudo porque? pensam os meus leitores, talves, por causa do bem estar do logar? enganam-se si assim julgam: tão hospitaleira é esta terra, mas as fraquezas humanas são sempre as mesmas em todas as cidades, em todas as regiões, em todas as terras: a intellectualidade pretende dominar, quer subir e governar o menos intruido, sabendo geralmente que aquelle quer mandar, ergue ainda mais a cabeça, não se curva; então começa a luta politica, que ahi no interior acaba com brigas e páu, tiros de garrucha e mortes." (Krug, 1925: 2).
Do mesmo assunto, num texto publicado em alemão, Krug mostrou-se mais contundente:
"Santa Cruz desfruta da triste fama de ser uma cidade política, aqui pois a política é uma bagunça maior e mais burra que em outros lugares do sagrado Estado de São Paulo, existem dois partidos os jagunços e os pica-paus que brigam sem parar sem que tivesse logicamente algum resultado que poderia ser útil para a cidade e seus habitantes.
Briga pessoal e tudo isso faz com que o bem da cidade e suas pendengas está sendo esquecido completamente, só intrigas e chicanas estão na ordem do dia. Infelizmente Santa Cruz não está sozinha com a sua política municipal, nos temos muitas pequenas cidades que podem agradecer seus políticos de chegar a lugar nenhum. Os políticos municipais infelizmente são sem exceção tão ignorantes que eles efetivamente não são capazes de diferenciar o certo do errado e por causa disso arruína tudo em vez de juntar as forças e iniciar progressos práticos. Se os jagunços ou os pica-paus tem razão objetivamente isto não é para mim diferenciar.
Praticamente os dois definitivamente não tem razão. Eles deviam ser sensatos antes de ter razão([22])." ('Í Deíne Reise nach dem Salto Grande Don Paranapanema, von Edmundo Krug, 1908, com a tradução do texto pelo sr. Christoph Donsbach, por gentileza do vereador santa-cruzense Rui Sérgio dos Reis, em janeiro de 2011').
Matéria de 1903, pró-Botelho, informava aquela eleição de 16 de dezembro de 1901 como 'bacanal política': 
"Indivíduos sem escrupulos repellidos pela opinião publica ou por todos aquelles que têm a felicidade de conhecel-os, tendo um estado maior composto de assassinos, resolveram, como meio de vida, se transformar da noite para o dia em chefes supremos desta terra, como, de facto, se transformaram. Uma vez feitos chefes, precisaram ganhar as eleições do dia 16: d'ahi a soldadesca encarabinada e a capangada engarruchada; d'ahi o atenttado barbaro, selvagem, escandaloso, contra o direito de voto no alludido dia; d'ahi, a espoliação de que foi victima o eleitorado desta comarca." (Correio do Sertão, 19/12/1903: 2).

-Apeado do poder – apelações desesperadoras 
Perdedor nas eleições de 1900 e 1901, Botelho ainda procurou reverter situações, em São Paulo, para assumir a chefia perrepista, retornando sem realização alguma. A viagem, segundo o Correio do Sertão que ainda o saudava como prestigioso chefe político, teria sido por motivos de saúde. (Correio do Sertão, 28/11/1902: 3).
Botelho, afastado do poder, perdeu alguns dos importantes correligionários. O dissidente de primeira hora, Moyses Nelli, renunciou ao cargo de suplente de delegado, no qual em exercício, e colocou-se ao lado dos vencedores para eleger-se juiz de paz; e outros companheiros seguiriam o mesmo rumo, e até o deputado dr. Cleophano Pitaguary de Araujo, fiel a Botelho, sentia-se constrangido: 
"S.Exc. manteve comnosco disse-nos francamente que em tudo que se relacionar com melhoramentos e progresso desta zona e, em particular desta localidade, se esquecerá de sua posição de dissidente, que sò manterá no terreno puramente político." (Correio do Sertão, 12/04/1902: 2).
O coronel tentou compreensão popular, num documento dos dissidentes ao eleitorado, que assinou conjuntamente com o deputado Pitaguary e João Evangelista da Silva, pai de Tonico Lista, que o PRP dissidente se absteria das eleições para presidente do estado, vaga aberta com a renúncia de Rodrigues Alves, concorrente para a presidência do país: "(...) declaramos ao brioso e independente eleitorado dissidente deste município que, consoante tal deliberação, não pleiteamos a eleição para presidente do estado." (Correio do Sertão, 10/05/1902: 3).
O informativo esclarecia, ainda, sobre a decisão partidária dissidente em não participar das eleições municipais para Juízes de Paz. Tal documento, assinado aos 07 de maio de 1902, foi o último ato político e não correspondido de Baptista Botelho, e, a seguir, o advogado e ex-deputado Dr. Olympio Rodrigues Pimentel assumiu a chefia dissidente, posto declarado inapto o coronel para quaisquer decisões, inclusive pessoais.
A derrota política associada aos rumores de traição conjugal de sua esposa com Antonio Evangelista da Silva - o Tonico Lista, e o abandono pelos companheiros, levaram o coronel ao desespero, e, no dia dois de julho de 1902 tentaria suicídio, um tiro no ouvido direito, vindo a óbito aos oito do mesmo mês, e então toda a pompa do cortejo fúnebre, com completa cobertura pelo Correio do Sertão, em sua edição de 12 de julho de 1902, trazendo o rol dos presentes, os destaques e as oratórias.
Documentos e referências 'resgatadas' explicam e informam aquelas e as outras causas que levaram o coronel ao tresloucado ato em pôr fim à própria existência.

-Grave crise financeira
A fortuna do coronel não era tão sólida quanto parecia.
Botelho teve problemas sérios com a primeira crise dos cafeicultores, em 1901, "difficuldades que vêm de longe, creadas pela crise financeira do paiz, aggravadas neste momento pela baixa do preço do café" (RG, U 1156, 1901: 5).
A crise de 1901, responsável pela bancarrota de grandes cafeicultores na época, agravara-se sobremaneira pela política deflacionária do presidente da república, dr. Campos Salles, seguida à risca pelo governo paulista.
O coronel, atingido pela desordem econômica, pusera-se a desfazer dos bens. Publicações em jornais da Capital e imprensa local revelavam que ao Botelho algo não ia bem, através dos anúncios de vendas de algumas de suas importantes fazendas: Dourado, Boa Vista, Salto da Boa Vista, Nova e Perobas.
As dificuldades financeiras do coronel eram tantas, que deixaria dívidas pendentes em seu espólio, por exemplo, a Joaquim José Pinto (Correio do Sertão, 24/05/1902: 3), fazendeiro na Perobas.

-Conflito conjugal
A tradição revela que o coronel Baptista Botelho e Dona Guilhermina não puderam ter filhos, ousando até que o Coronel seria infértil ou, mesmo impotente, e no registro de seu óbito constou que "não deichára filho algum", conforme declarações do sogro Francisco Narcizo Gonçalves (Cartório Registro Civil, SCR.Pardo, Certidão de Óbito nº 1894, de 09/07/1902 – L.C 4 de 16/03/1902 - 30/12/1903: 136 a. – v).
A despeito de longos anos casado com dona Guilhermina, pelo menos desde 1880/1882, o casal somente teve filhos identificados após 1895, primeiro a Maria, nascida aos 25 de outubro do dito ano (Igreja Católica, SCR. Pardo, Registro de Batismo nº 323), depois Benedicto, nascido aos 02 de março de 1900 (Igreja Católica, SCR. Pardo, Assento LX – 4323), este falecido em 07 de março do mesmo ano de 1900, conforme Registro de Óbito nº 567, no Cartório Registro Civil de Santa Cruz do Rio Pardo, mas não localizado o óbito de Maria, antes do falecimento do pai, o que evidentemente não a pressupõe viva por ocasião do ocorrido.
Apesar de insistentes conjecturas, não se pode comprovar relacionamento extraconjugal de dona Guilhermina com Tonico Lista, ou qualquer outra pessoa, contudo, morto Botelho, o então capitão Lista teve relacionamentos com a viúva antes de se casarem, primeiro 'no religioso', aos 17 de julho de 1904, e tiveram os filhos: João, nascido aos 19 de janeiro e batizado aos 03 de junho de 1905 (Batismo 1903/1907: 180) - seis meses após o matrimonio religioso; Rita nasceu aos 09 de fevereiro e batizada aos 08 de julho de 1907 (Batismos 1907/1911: 44) e Alice nascida aos 10 de agosto e batizada aos 24 de dezembro de 1909 (Batismos 1907/1911: 171). Dona Guilhermina tinha a idade de 39 anos quando do seu casamento com Tonico Lista, e gerou seus filhos com a idade de 39/40, 42 e 44 anos, respectivamente.

-A esposa dona Guilhermina Brandina da Conceição
Guilhermina, segundo as tradições, nasceu em Brotas - SP. no ano de 1865. filha do mineiro de Silvianópolis, Francisco Narcizo Gonçalves e de Maria Julia da Conceição - casados em Brotas aos 22 de setembro de 1864, sendo avós paternos Antonio Joaquim Gonçalves e Francisca de Paula Brandina, e os maternos Pedro Bicudo de Siqueira e Anna Lucia de Jesus; e são conhecidos os seus irmãos, Antonio, Alfredo, Francisco e Osório Gonçalves (Rios, 'Coronel Tonico Lista, o perfil de uma época', 2004: 74)as irmãs Amelia, Palmyra, Maria Julia, Carmelina e Clementina (Rios, op.cit, 75).
Não localizado assentos de batismos em Brotas correspondentes ao ano indicado para o nascimento de dona Guilhermina.    
Vista como mulher bonita, inteligente e opiniosa, teve sua personalidade forjada num lar de parcos recursos - o pai era comerciante, porém, família metida a classe média, na época, que se dobrava ante os coronéis e a eles cumpria obrigações.
Guilhermina, ainda menina moça, foi dada em casamento ao coronel João Baptista Botelho (Rios, op.cit, 52), homem reconhecidamente violento, que fazia controlar os passos da mulher, através de um escravo de seu plantel, o Luiz Antonio Pereira, vulgo 'Luiz de Saia', segundo lembranças nos anos de 1970/1980, homossexual, feito eunuco desde criança, conhecido pelos trejeitos e arroubos de feminilidade, além do hábito de usar vestido - roupa feminina, sob a qual portava armas de fogo e branca; e era bom de briga - capoeirista.
O cativo nasceu em Brotas, no ano de 1863, assim informado na lápide de sua sepultura, sendo evidente que ele e sua proprietária ou protegida criaram vínculos de cumplicidades, tanto que, liberto, continuou a lhe prestar serviços.
Luiz não acompanhou dona Guilhermina em sua mudança para São Paulo em 1919, permanecendo em Santa Cruz do Rio Pardo, onde faleceu aos 08 de julho de 1927.
Desde sempre 'Luiz de Saia', figura caricata, foi personagem marcante em Santa Cruz: educado, respeitador e cumpridor de ordens; alguns se espantavam ao vê-lo, especialmente crianças e visitantes, no entanto inofensivo, mas, que ninguém se enganasse, apesar de não encrenqueiro nem violento, o travesti 'Luiz de Saia' foi 'guarda-costas' da mais importante, poderosa e emblemática mulher santa-cruzense da época, dona Guilhermina Brandina da Conceição.
Guilhermina teve com o coronel Botelho a filha Maria e o filho Benedicto, mortos precocemente, todavia colocando por terra a propalada infertilidade do marido, embora se saiba, oficialmente, que o casal não teve outros descendentes ao longo de mais de vinte anos de casamento.
Fato notório, no entanto, chama a atenção, a denúncia de crianças enterradas na fazenda do coronel Botelho, no Bairro Ribeirão Grande (Correio do Sertão, 17/05/1902: 1), hoje município de Ipaussu. O caso teve desdobramentos (Correio do Sertão, 24/05/1902: 2), foram localizadas as sepulturas, mas as investigações findaram sem maiores detalhes, numa época que, se sabe, o coronel estava desgostoso e vivendo problemas outros, de cunhos político e financeiro.
Enviuvada do coronel Botelho, em 1902, Guilhermina casou-se com o coronel Tonico Lista - Antonio Evangelista da Silva, do qual viúva em 1922, contraiu terceiro matrimônio, em São Paulo, com o comerciante e proprietário Victor de Almeida Ressi ou Resse.
Dona Guilhermina faleceu em Santa Cruz do Rio Pardo aos 18/07/1929, idade informada de 64 anos, e natural de Lençóis Paulista.

-Desvios de dinheiro público 
O coronel Botelho, pelas memórias de antanho, desfrutava a figura de homem íntegro, enriquecido à custa do trabalho, mas, desde os resgates de documentos oficiais, tal imagem não mais o representa.
Botelho, nas oportunidades que teve, não hesitara desviar recursos públicos e mais enriquecer-se à custa do erário, em administrações voltadas para si e seus apaniguados.

-Falcatruas contra o Tesouro do Estado
O coronel Botelho exercia, por nomeação, o cargo de coletor de rendas quando, em 1889, solicitou exoneração, indicando como substituto o advogado João Castanho de Almeida.
No exercício das funções dr. Castanho de Almeida detectou rombo financeiro contra o Tesouro do Estado, praticado pelo seu antecessor, denunciando-o ao Governo Campos Salles. A força política do coronel, porém, prevalecera: 
"(...) foi exonerado o sr. João Castanho de Almeida, do cargo de colletor de rendas de Santa Cruz do Rio Pardo, e nomeado para substituil-o o sr. Antonio Olympio de Oliveira Ferraz."
Qual a causa dessa demissão?" (A Nação, SP, 03/09/1897: 1).
A matéria denunciativa prosseguia:
"O Collector foi demitido porque denunciou a existencia de uma fraude contra o Thesouro do Estado na importacia de 130 contos de réis mais ou menos e na qual esta envolvido um chefe politico dessa localidade [Coronel Botelho].
O dr. Campos Salles [Presidente do Estado de São Paulo: 1896/1897] que precisa de votos para vencer a sua vaidade e ambição [Presidência do Brasil: 1898/1902] não trepida em prejudicar os dinheiros publicos (será a primeira vez?...) e a repartição de um funcionario, entretanto que satisfação o capricho do chefe politico fraudulento." (A Nação, SP, 30/09/1897: 1).
Apesar do apoio político dado ao Dr. Campos Salles, o Coronel Botelho não resistiu à chegada de Rodrigues Alves ao governo paulista, indicado pelo próprio Campos Salles, o que o levou à dissidência em 1900.
Com a ascensão de Costa Junior e Abreu Sodré à liderança política local, Botelho viu ressurgir o assunto da fraude praticada, e isto teria sido mais um motivo, associado, para a tentativa de suicídio.

-Desfalques e desvios de verba pública municipal
Outra causa para Botelho atentar contra a vida, aliada ou não às demais justificações, foram as denúncias sobre desvios de dinheiro público municipal, malversação do erário, dilapidação dos bens municipais, formação de quadrilha, corrupção e exacerbado despotismo.
O coronel Botelho era o mandador político quando, no exercício de 1897, o fiscal da Câmara, Gaspar Serpa, foi demitido por razões político-administrativas, e, cinco anos depois, o Serpa colocaria sob suspeições as legislaturas 1897/1898, e 1899/1901, denunciando desvios de recursos públicos numa indagação sarcástica, sobre as procedências dos bens individuais de cada um deles e, aonde "que os honrados chefes e não menos sérios vereadores guardaram as rendas da camara durante os cinco anos que deixei de ser fiscal"? (Correio Paulistano, 01/02/1902: 2).
A postura de Serpa confirmava as razões que o Vereador e Vice-presidente da Câmara Municipal, Israel Machado, teria renunciado por recusar-se em "assinar folha de pagamento dos funcionários do Município, com diversos nomes fantásticos. (...) examinou e constatou as irregularidades. Jamais voltou, apesar de todo malabarismo dos interessados." (Carta de Israel V. Machado, pela sua família, datada de 28 de setembro de 1960, CD: A/A).
Procedia:
Machado eleito vereador em 1896 e escolhido vice-presidente da câmara, fez-se demissionário do cargo na sessão de 08 de abril de 1897, com a perda consequente da vice-presidência do legislativo. 

A Câmara eleita em 1901, para o triênio 1902/1904, resolveu investigar ambas as legislaturas denunciadas, nomeando duas comissões de investigações, uma interna formada pelos 'vereadores Salathiel Ferreira e Sá, Antonio Mariano Galvão de Moura Lacerda e Henrique Hardt', e outra externa e independente, pelo menos deveria ser, composta pelos, 'Coletor de Rendas Públicas, Ismael de Barros, o Delegado de Polícia, Capitão Ezequiel da Silva Guedes, e o industrial em São Carlos (SP) Ernesto Raffaelli, sócio de David Nelli' - este último, irmão de Moyses Nelli.
A comissão externa evidentemente, pela sua composição, não parecia independente, nem imparcial. 
As duas Comissões apresentaram o mesmo veredicto em março de 1902, o coronel Botelho era o culpado de um rombo maior que 10:000$000, dos cofres da municipalidade, e demais acusações imputadas, a ele e ao procurador da legislativo local, major Firmino Manoel Rodrigues [Roiz¨], sendo que este se recusara entregar às comissões os livros contábeis e demais documentos necessários a melhor investigação.
Contra Botelho as comissões tentaram, em vão, seduzir o major apenas cumprira as ordens dadas por Botelho, o presidente da câmara e chefe político. Com a negativa a Câmara solicitou buscas e apreensões dos documentos na residência do major Firmino, e que este fosse conduzido coercitivamente perante as comissões, para explicar retiradas pessoais de porcentagens, sobre os pagamentos inexistentes e as ausências de lançamentos, ou mais precisamente, onde estaria todo o montante desviado.
O Major evadiu-se e, assim, teria evitado provas documentais contra Botelho.
Algumas publicações colhidas no Correio Paulistano mostravam o cerco a se fechar em torno dos acusados, desqualificando testemunhos e defesas: "Entre a honra e a Privação (01/02/1902: 2); Cartas na mesa (21/03/1902: 2); "Calumnia Abatida" (17/04/1902: 1-3); e Caixeiro Expulso (17/04/1902: 2)." 
O Correio Paulistano em "Como se escreve a História!!!", revelou publicamente relatórios e atas das Comissões de Investigações nomeadas pela Câmara Municipal, conclusos pela culpabilidade de Botelho e de Firmino Roiz¨-" (Mala do Interior, edição de 23/04/1902: 2).
Estas foram as arremetidas do grupo 'sodrelista', dominante perrepista contra os dissidentes excluídos do poder. 

-Acontecimentos precedentes à tentativa suicida

Os dissidentes, acuados, buscaram justificativas e contraatacaram os 'sodrelistas', sem efeitos, pelo Correio do Sertão.

Botelho não tinha mais forças nem aliados fortes, e o processo camarário seria remetido ao judiciário e ele entregue à sanha dos adversários, onde juiz o dr. Augusto José da Costa, irmão e genro do dr. Costa Junior, além de tio e cunhado da esposa do chefe político Abreu Sodré.

Já se previa o Botelho preso, e este, para evitar a vergonha em vida, impelido pela depressão, decidiu pelo suicídio.

O coronel, ciente do futuro, optou por atentar contra a própria vida, aos 02 de julho de 1902, cujo óbito seis dias depois. 

O Correio do Sertão certamente não ignorava as causas do suicídio de Botelho, contudo, optou por preservar sua memória: 

"Não tendo deixado escripto algum explicando o motivo que o levou a praticar o lamentável acto de desespero, que causou-lhe a morte, constitue para nòs um mysterio, que talvez ainda seja desvendado. Má posição pecuniaria? Não, porque, segundo estamos informados, é ella das melhores. Alguma molestia incurável? É possível. Loucura? Não; pelo menos nenhum absolutamente nenhum acto praticou anteriormente que tal fizesse crer. Perseguições políticas? Talvez. O que é facto é que o suicídio do coronel Botelho é para nós um mysterio." (Correio do Sertão, 12 de julho de 1902: 1).
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